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Alicerces

Havia, certa vez, três irmãos que pareciam não concordar sobre coisa alguma. Em qualquer assunto, se houvesse dois pontos de vista, eles eram suficientemente criativos para encontrar uma terceira opção. Um era republicano, outro democrata e o terceiro, independente: Chrysler, Ford e General Motors; chocolate, morango e baunilha. Se lhes fosse perguntado: “De que cor é aquele automóvel?”, provavelmente o indagador ouviria: cor de malva, roxo-escuro, e “a mim me parece mais marrom-arroxeado”.

Sua mãe, ao ouvi-los, meneava a cabeça e pensava: “Como podem esses filhos, todos nascidos e criados na mesma casa, ser tão diferentes uns dos outros? Às vezes, a coisa era divertida. Mas, em geral, exasperante!

No início de sua vida adulta, Cor de Malva, Roxo-Escuro e Marrom-Arroxeado procuravam seguir seus respectivos destinos. Seu pai os aconselhara a construírem suas próprias casas. Para implementar esse sonho, exploraram todos os meios possíveis e disponíveis. Consultaram especialistas, navegaram pela Internet, pesquisaram em bibliotecas e até oraram a respeito.

Na tentativa de oferecer-lhes mais uma opção, a mãe, com seu modo sereno e humilde, sugeriu que atentassem para uma história tradicional e memorável de dois homens — um deles construiu sua casa sobre a rocha e outro sobre a areia. A interpretação desse relato sempre parecera bastante clara porque quem havia narrado a história fora bastante objetivo em aplicá-la à vida. Aparentemente só havia uma escolha prudente e a mãe esperava ansiosamente que, nesse caso pelo menos, os três irmãos chegassem a um acordo.

Mas, que nada! Como em tudo o mais, Cor de Malva, Roxo-Escuro e Marrom- Arroxeado leram a história das duas casas segundo pontos de vista contrastantes. Enquanto a pobre mãe torcia as mãos imaginando que talvez sua referência às duas casas houvesse sido um erro, seus filhos partiram. Com quatro pontos cardeais a escolher, isso previsivelmente os levaria a direções diferentes, mesmo deixando uma direção de fora.

Cor de Malva, sempre o mais resoluto e sensato, acatou a interpretação original do narrador da história. Após exaustiva investigação de todo terreno disponível, começou a lançar os alicerces de sua casa sobre o rochedo mais sólido que pôde encontrar. “Não há dúvida sobre o significado da história”, afirmou ele confiantemente.

Roxo-Escuro zombou: “Essa é uma história tão antiga que perdeu sua aplicação. Agora temos tantos avanços no setor de engenharia e construções, que é possível edificar em qualquer parte que se queira.” Assim, contratou um construtor para começar imediatamente a obra de sua bela casa na praia.

Marrom-Arroxeado sempre havia se considerado intelectualmente superior aos irmãos. “A história das duas casas pode ainda ser aplicada”, disse, “mas é necessário perceber o que está nas entrelinhas. Temos de usar a cabeça. Se desejarmos extrair a verdade definitiva desse relato, temos de levar em conta a época em que foi escrito, o auditório ao qual se dirigia e o milieu [meio].” Ele gostava de usar o termo francês milieu para confundir seus irmãos. Imaginava que ao empregar essa palavra sofisticada demonstrava superioridade sobre eles.

Como resultado da leitura da história das duas casas, Marrom-Arroxeado decidiu edificar a sua sobre a água! “Que proteção melhor contra a chuva e as enchentes”, raciocinou ele, “do que edificar a casa de modo a subir e descer com o nível d’água? A loucura de edificar sobre a areia era óbvia a qualquer um; construir sobre a rocha significava que a casa permaneceria firme, mas o que dizer do trabalho de limpeza se ocorresse uma enchente? Quem precisava disso?”

Não, construir sobre a água — uma casa-barco — tinha de ser a resposta! Logicamente, isso não existia quando o narrador da história a apresentara pela primeira vez. Mas o pensamento moderno havia propiciado uma solução inovadora para situações de chuvas e enchentes. “Temos de nos manter atualizados”, argumentava ele. “Qual é a utilidade do conhecimento se não nos dispusermos a aplicá-lo dia-a-dia?”

Assim, os irmãos construíram as casas de seus sonhos, cada qual numa localidade que lhes parecia melhor. As três casas despertaram muita admiração no povo, pois cada uma apresentava suas peculiaridades. A seção de casas e terrenos do jornal local publicou um artigo bastante sugestivo e com muitas fotos, caracterizando o interesse das pessoas na construção das três casas. A matéria começava dizendo: “Era uma vez três irmãos que nunca pareciam concordar sobre coisa alguma...”

De repente, construtores e corretores de imóveis perceberam estar ocorrendo uma verdadeira explosão de demanda no mercado imobiliário. Os clientes explicavam o que estavam procurando em termos do estilo das casas que os três irmãos haviam construído: “Tenho estado à procura de uma boa casa. Você não acha que uma do tipo construído pelo Cor de Malva pareceria boa neste local?” “Minha esposa adoraria uma casa como a do Roxo-Escuro. Poderia encontrar uma para nós?”

O interesse na compra de propriedades era tanto que ninguém percebeu as primeiras lufadas de vento, ou as primeiras gotas do que mais tarde ficou conhecido como “A Tempestade Perfeita”. A princípio, pensou-se que seria apenas mais período de mau tempo, do tipo que leva muitos a ironizarem: “Esse pessoal da meteorologia nunca sabe do que está falando...”

Dessa vez, porém, a tempestade tornou-se mais e mais intensa e furiosa. Como dizia um velho cântico familiar, “A chuva caiu e a água subiu”. Foi assim mesmo que aconteceu. E quando o nível d’água atingiu suas casas, Roxo-Escuro e Marrom-Arroxeado tiveram que buscar proteção em terreno mais elevado. Cor de Malva, contudo, assistia “de camarote”, da janela de sua sala-de-estar, a formação da tormenta. “Creio”, pensou ele, “que isso provará quem é o mais sábio dentre nós!”

Após uma inesperada e longa temporada de aguaceiros violentos e assustadores, a tempestade do milênio, por fim, aquietou-se. Cor de Malva voltou para sua casa e, achando-a intacta, começou o trabalho de limpeza. Porém, a casa de Roxo-Escuro simplesmente não existia mais. Por isso, decidiu reconstruí-la em local mais seguro. Quando o pessoal da defesa civil foi ver como Marrom-Arroxeado havia se saído, não encontraram absolutamente nada. Sua casa havia perdido completamente as estacas de apoio, sendo carregada de vez pela fúria da tempestade.

Como afirmou posteriormente um artigo do jornal local: “Parece que só há mesmo duas escolhas.”

Gary Swanson é o editor do CQ, antigo Trimensário Colegial e autor de muitos artigos. www.cq.youthpages.org


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